O leitor e a poesia

sexta-feira, 2 de abril de 2010

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Poesia

         não é o que o autor nomeia,
         é o que o leitor incendeia.

        Não é o que o autor pavoneia,
        é o que o leitor colha à colmeia.

        Não é o ouro na veia,
        é o que vem na bateia.

Poesia

        não é o que o autor dá na ceia,
       mas o que o leitor banqueteia.

                                                      Affonso Romano de Sant'Anna

Barulho

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Todo poema é feito de ar
apenas:

              a mão do poeta
              não rasga a madeira
              não fere
                                      
                                 o metal
                                 a pedra

              não tinge de azul
              os dedos
              quando escreve manhã
              ou brisa
              ou blusa

                                de mulher.

O poema
é sem matéria palpável
             tudo
             o que há nele
             é barulho

                           quando rumoreja
                           ao sopro da leitura.

                                Ferreira Gullar

Do estilo

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Fere de leve a frase... E esquece... Nada
      Convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.

                       Mário Quintana

Assaltaram a gramática

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Assaltaram a gramática
Assassinaram a lógica
Meteram a poesia
Na bagunça do dia a dia
Sequestraram a fonética
Violentaram a métrica
Meteram a poesia
Onde devia e não devia
Lá vem o poeta
Com sua coroa de louros,
Bertalha, agrião, pimentão, boldo
O poeta é a pimenta
Do planeta!
(Malagueta!)

   Lulu Santos, Waly Salomão e Gabriel - pensador

A descoberta do mundo

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     Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
     Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assuta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la ─ como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
     Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança da língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
     Essas dificuldades, nós a temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
     Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu gostaria de pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

                                                                                                       Clarice Lispector

Orora analfabeta

sexta-feira, 5 de março de 2010

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Eu arranjei lá uma dona boa lá em Cascadura
Grande criatura mas não sabe ler
Nem tampouco escrever
Ela é bonita, bem feita de corpo
E cheia da nota
Mas escreve gato com "j"
E escreve saudade com "c"
Ela disse outro dia que estava doente
Sofrendo de estrombo
Lavei um tombo...caí durinho para trás
Isso sim já e demais!
Ela fala "aribú", "arioprano" e "motocicreta"
Diz que adora feijoada "compreta"
Ela é errada demais
Vi uma letra "O" bordada na blusa
Falei é agora
Perguntei o seu nome
Ela disse é "Orora"
E sou filha do "Arineu"
O azar é todo meu...


    Gordurinha e Nascimento Gomes