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O assassino era o escriba

terça-feira, 27 de abril de 2010

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 Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito
inexistente.

Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjugação.

Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.

Casou com uma regência.

Foi infeliz.

Era possessivo como um pronome.

E ela era bitransitiva.

Tentou ir para os E.U.A.

Não deu.

Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.

A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.

Um dia matei-o com um objeto direto na cabeça.

                                  Paulo Leminski. Caprichos e relachos.

Estrangeirismo 1

quinta-feira, 15 de abril de 2010

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Não compliquem o nosso idioma
                                                              
      Na bolsa, só cheque e cartão de crédito. Cadê dinheiro para pagar o etacionamento? Recorri ao personal banking. No drive thru, a primeira máquina estava out of order. Fui à segunda. Nada feito: sistema off line. Liguei para o hot line. Expliquei meu aperto à operadora. "Vamos estar providenciando o conserto do caixa. A senhora pode acessar sua conta em outro terminal. O mais próximo fica no shopping." Fui lá o sistema estava on line. Embolsei R$ 100 cash.
      O inglês invadiu as instituições bancárias. Antes, timidamente. Restringia-se ao traveller´s check, ao credicard  e a aplicações inacessíveis aos comuns dos mortais. Depois, ficou atrevido. Foi deixando o português para trás. Para chegar lá, trilhou dois caminhos. Um cuidadosamente traçado pelo marketing. Os bancos passaram a oferecer produtos na linguagem do cliente. Ou melhor: na linguagem que impressiona o cliente. Embalar o serviço na língua do Tio Sam valoriza a oferta. Dá-lhe status. Telemarketing, personal manager, phone banking & cia. São filhotes dessa estratégia.
      Deu a mão? A gringa avançou pro braço. Sem convite, foi além de meras palavras. Chegou à estrutura de línguas. Fincou  pé nos verbos. Exemplos não faltam. Um deles: substituir o futuro "providenciarei" pelo "vamos estar providenciando". Outro: trocar o pretérito "foi desligado" pelo "tem sido desligado".
      De onde vêm os monstregos? Das traduções mal feitas. O inglês tem muitas formas verbais compostas. É o caso do "I´ll be sending". Três verbos para dizer o nosso simples "enviarei", traduzido por "vou estar en-viando". Há também o past perfect "The telephone has been desconected" que quer dizer "o telefone foi desligado". Não tem nada a ver com "tem sido desligado", que indica uma ação que começou no passado e continua no presente. Com o avanço da informática e do marketing, a coisa piorou. A literatura dessas novidades é praticamente em língua inglesa. Nós consumimos as traduções.
      Invasão de língua estrangeira tem várias razões. Uma é prestígio. O inglês avançou nas nossas fronteiras porque é falado pela maior potência do planeta, que vende como ninguém sua música, seu cinema, sua televisão, sua literatura, sua tecnologia e o seu american way of live. Outra é a receptividade. Nós, já dizia Gláuber Rocha, temos complexo de vira-lata. O que vem de fora é melhor.
       O inglês deita e rola. O disque virou disk. Do disk-pizza ao disk-entulho, passando pelo disk-sushi e disk-bombeiro. Liquidação é sale. Moda, fashsion. Camiseta, T-shirt. Relatório, paper. Acampar, camping. Revisão médica, check-up. Por que os bancos ficariam para trás? Fundo se naturalizou fund. Taxa de risco, spread. Loan, empréstimo.
      O inglês na vida tupiniquim não é novidade. Vem de longe. Mas se firmou graças a Hollywood, à Segunda Guerra Mundial e ao avanço tecnológico. Ava Gardner, Greta Garbo, Clark Gable, Rodolfo Valentino, James Dean, Elvis Presley e cia. Deram asas à imaginação deste país colonizado. Bom ser bonito e famoso como eles. Mascar chicletes, tomar Coca-Cola, fumar Camel e usar óculos Rayban viraram obsessão.
      A guerra trouxe os gringos até aqui. Vivíamos a política da boa vizinhança com os Estados Unidos. Natal, Recife, São Luís, Belém foram invadidas pelo povo do norte em nome da sagrada aliança contra Hitler, Mussolini e todas as forças do mal encarnadas no Eixo.
      Inventaram que aí nasceu a palavra forró. Os gringos promoviam festas para si. Eram privacy. Volta e meia, abriam. Aí eram for all, para todos. Nossos caboclos, analfabetos em português e duplamente em inglês, simplificaram a pronúncia. For all virou o nordestíssimo forró. Puro folclore. Forró é a redução de forrobodó. Mas a versão tem sido tão insistentemente repetida que virou verdade.
      A familiaridade com o inglês deixou-nos ousados. Hoje aportuguesamos termos que nem sonhavam figurar no Aurélio. Muito menos no Vocabulário Ortográfico. A informática serve de exemplo. Com ela, nossa criatividade alça voos. E ultrapassa os limites da máquina. Deletar tomou a vez do velho "apagar". Printar expulsou o "imprimir". Startar caçou o "começar".
      É isso. Quem não aderiu se tornou out. Que corra atrás do prejuízo. Peça help e vire in.

                                        Dad Squarisi. Revista Exame, 18/11/1998

Aula de Português

domingo, 11 de abril de 2010

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p     r       r    t
    u    o    c  s
 u      o    r   r     s  
P       t           ê
  u   L   p    u  t
u  ê  o    g     P  ê       u  
           o                  t
ê     u    g    ú  t   o   s  
      ê     g   o         r   a
  o   i   P      u        P
A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.
A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?
Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância,
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.
Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia  para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.
                        Carlos Drummond de Andrade

Assaltaram a gramática

sexta-feira, 2 de abril de 2010

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Assaltaram a gramática
Assassinaram a lógica
Meteram a poesia
Na bagunça do dia a dia
Sequestraram a fonética
Violentaram a métrica
Meteram a poesia
Onde devia e não devia
Lá vem o poeta
Com sua coroa de louros,
Bertalha, agrião, pimentão, boldo
O poeta é a pimenta
Do planeta!
(Malagueta!)

   Lulu Santos, Waly Salomão e Gabriel - pensador

A descoberta do mundo

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     Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
     Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assuta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la ─ como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
     Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança da língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
     Essas dificuldades, nós a temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
     Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu gostaria de pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

                                                                                                       Clarice Lispector

Orora analfabeta

sexta-feira, 5 de março de 2010

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Eu arranjei lá uma dona boa lá em Cascadura
Grande criatura mas não sabe ler
Nem tampouco escrever
Ela é bonita, bem feita de corpo
E cheia da nota
Mas escreve gato com "j"
E escreve saudade com "c"
Ela disse outro dia que estava doente
Sofrendo de estrombo
Lavei um tombo...caí durinho para trás
Isso sim já e demais!
Ela fala "aribú", "arioprano" e "motocicreta"
Diz que adora feijoada "compreta"
Ela é errada demais
Vi uma letra "O" bordada na blusa
Falei é agora
Perguntei o seu nome
Ela disse é "Orora"
E sou filha do "Arineu"
O azar é todo meu...


    Gordurinha e Nascimento Gomes

Não tem tradução

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O cinema falado é o grande culpado da transformação
Dessa gente que sente que um barracão prende mais que o xadrez
Lá no morro, seu eu fizer uma falseta
A Risoleta desiste logo do francês e do Inglês
A gíria que o nosso morro criou
Bem cedo a cidade aceitou e usou
Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote
Na gafieira dançar o Fox-Trote
Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição
Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês
Tudo aquilo que o malandro pronuncia
Com voz macia é brasileiro, já passou de português
Amor lá no morro é amor pra chuchu
As rimas do samba não são I love you
E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny
Só pode ser conversa de telefone..

                     Noel Rosa

Palavra cantada

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O substantivo
É o substituto do conteúdo


O adjetivo
É a nossa impressão sobre quase tudo


O diminutivo
É o que aperta o mundo
E deixa miúdo


O imperativo
É o que aperta os outros e deixa mudo


Um homem de letras
Dizendo ideias
Sempre se imflama


Um homem de ideias
Nem usa letras
Faz ideograma


Se altera as letras
E esconde o nome
Faz anagrama


Mas se mostro o nome
Com poucas letras
É um telegrama


Nosso verbo ser
É uma identidade
Mas sem projeto


E se temos verbo
Com objeto
É bem mais direto


No entanto falta
Ter um sujeito
Pra ter afeto


Mas se é um sujeito
Que se sujeita
Ainda é objeto


Todo barbarismo
É o português
Que se repeliu


O neologismo
É uma palavra
Que não se ouviu


Já o idiotismo
É tudo que a língua
Não traduziu


Mas tem idiotismo
Também na fala
De um imbecil





           Sandra Peres / Luiz Tatit

Sintaxe à vontade

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"Sem horas e sem dores
Respeitável público pagão
Bem vindo ao teatro mágico!
sintaxe à vontade..."

Sem horas e sem dores
Respeitável público pagão
a partir de sempre
toda cura pertence a nós
toda resposta e dúvida
todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser
todo verbo é livre para ser direto ou indireto
nenhum predicado será prejudicado
nem tampouco a vírgula, nem a crase nem a frase e ponto final!
afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas
e estar entre vírgulas é aposto
e eu aposto o oposto que vou cativar a todos
sendo apenas um sujeito simples
um sujeito e sua oração
sua pressa e sua prece
que a regência da paz sirva a todos nós... cegos ou não
que enxerguemos o fato
de termos acessórios para nossa oração
separados ou adjuntos, nominais ou não
façamos parte do contexto da crônica
e de todas as capas de edição especial
sejamos também o anúncio da contra-capa
mas ser a capa e ser contra-capa
é a beleza da contradição
é negar a si mesmo
e negar a si mesmo
é muitas vezes, encontrar-se com Deus
com o teu Deus
Sem horas e sem dores
Que nesse encontro que acontece agora
cada um possa se encontrar no outro
até porque...


tem horas que a gente se pergunta...
por que é que não se junta
tudo numa coisa só?
Fernando Anitelli (Teatro Mágico)

Vou tirar você do meu dicionário

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Eu vou tirar do dicionário
A palavra você
Vou trocá-la em miúdos
Mudar meu vocabulário
e no seu lugar
vou colocar outro absurdo
Eu vou tirar suas impressões digitais
da minha pele
Tirar seu cheiro
dos meus lençóis
O seu rosto do meu gosto
Eu vou tirar você de letra
nem que tenha que inventar
outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
com quantos "nãos" se faz um sim
Eu vou tirar o sentimento
do meu pensamento
sua imagem e semelhança
Vou parar o movimento
a qualquer momento
Procurar outra lembrança
Eu vou tirar, vou limar de vez sua voz
dos meus ouvidos
Eu vou tirar você e eu de nós
o dito pelo não tido
Eu vou tirar você de letra
nem que tenha que inventar
outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
com quantos "nãos" se faz um sim
CANÇÕES PAULISTAS
Interpretação:
VOU TIRAR VOCÊ DO DICIONÁRIO

Itamar Assunção / Alice Ruiz

Meninos e meninas

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Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui

Acho que gosto de São Paulo
Gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas

Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre
Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente
Estou cansado de bater e ninguém abrir
Você me deixou sentindo tanto frio
Não sei mais o que dizer

Te fiz comida, velei teu sono
Fui teu amigo, te levei comigo
E me diz: pra mim o que é que ficou?

Me deixa ver como viver é bom
Não é a vida como está, e sim as coisas como são
Você não quis tentar me ajudar
Então, a culpa é de quem? A culpa é de quem?

Eu canto em português errado
Acho que o imperfeito não participa do passado
Troco as pessoas
Troco os pronomes


Preciso de oxigênio, preciso ter amigos
Preciso ter dinheiro, preciso de carinho
Acho que te amava, agora acho que te odeio
São tudo pequenas coisas e tudo deve passar

Acho que gosto de São Paulo
E gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas
            Renato Russo

Língua

domingo, 28 de fevereiro de 2010

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Esta língua é como um elástico
que espicharam pelo mundo.

No início era tensa,
de tão clássica.
Com o tempo, se foi amaciando,
foi-se tornando romântica,
incorporando os termos nativos
e amolecendo nas folhas de bananeira
as expressões mais sisudas.

Um elástico que já não se pode
mais trocar, de tão gasto;
nem se arrebenta mais, de tão forte.

Um elástico assim como é a vida
que nunca volta ao ponto de partida.

                                                      Gilberto Mendonça Teles

Língua Portuguesa

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

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Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

                                             Olavo Bilac

Língua

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Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixa os portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
─ Fala mangueira!
Fala!

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Vamos na velô da dicção choo choo de
Carmen Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E - xeque-mate - explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da
TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homen
Adoro nomes
Nomes em Ã
De coisas como Rã e Ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Matoso e Arrigo Barnabé e Maria da
Fé e Arrigo barnabé

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?

Incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Se você tem uma idéia incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o
Recôncavo
Meu medo!

A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria: tenho mátria
E quero frátria

A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria: tenho mátria
E quero frátria

Poesia concreta e prosa caótica
Ótica futura
Samba -rap, chic-left com banana
Será que ela está no Pão de Açúcar?
Tá craude brô você e tu lhe amo
Qué queu te faço, nego?
Bote ligeiro

Nós canto-falamos como que inveja negros
Que sofrem horrores no gueto do Harlem
Lívros, discos, vídeos à mancheia
E deixe que digam, que pensem e que falem

                          Caetano Veloso

Uma palavra

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

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Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo.
Anterior ao entendimento, palavra.

Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra.
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra.
Palavra dócil
Palavra d'água pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso,
em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra.
                                  
Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra.

Talvez, à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras, que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra.

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra.


                         Chico Buarque de Holanda