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Metalinguagem

domingo, 9 de maio de 2010

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Do caderno de uma amiga
Algumas poesias eu li
E encontrei disparates
Escondidos em sutilidades
Das quais não pude deixar de rir

Por que só em noites frias
É que sentimos solidão?
Será que ninguém é solitário
E sofre o vazio de não ser amado
Em tardes quentes de verão?

E por que é sempre a lua
que inspira os apaixonados?
Ninguém declama ao sol,
O astro rei, pobre coitado
Que sempre é deixado de lado.

E que o escapismo covarde
Dizer que dói o tal amor
Pois é a rima mais fácil, de fato,
Entre dois substantivos abstratos
Que nem aqui ouso pôr.

Ah, poesia, poesia
Por que gasto contigo
Linhas e linhas de minha grafia
Já que tudo o que é poético
Me soa assim, meio patético?

E nessa poesia diária
Onde todos os amantes sofrem
Sigo sozinho porque o quis
Pois se amar é José de Alencar
Minha vida é Machado de Assis.

         Daniel Colicchio Aliprandini

domingo, 11 de abril de 2010

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"Dever do poeta é cantar com seu povo e dar ao homem o que é do homem: sonho e amor, luz e noite, razão e desvario."
                                                                   Pablo Neruda

Pedem-me um poema

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Pedem-me um poema,
um poema que seja inédito,
poema é coisa que se faz vendo,
como imaginar Picasso cego?

Um poema se faz vendo,
um poema se faz para a vista,
como fazer um poema ditado
sem vê-lo na folha escrita?

Poema é composição
mesmo da coisa vivida,
um poema é o que se arruma,
dentro da desarrumada vida.

Por exemplo, é como um rio,
por exemplo, um Capibaribe,
em suas margens domado
para chegar ao Recife.

                        João Cabral de Melo Neto




Metamorfose

sexta-feira, 2 de abril de 2010

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A palavra atravessa
a máscara pálida da emoção
e instiga o reflexo ofuscante da criação.

Através da forma formosa
da disforme fôrma
da alomorfia da metáfora
crio e recrio
o empírico
o impuro 
o imperene.

Até o nada 
me alucina
me fertiliza.
Niilismo lírico
da existência metamórfica
que me desgasta
e se engasta na palavra.

Essa palavra que atravessa
o corpo silente
e explode e se expande
como o cosmo
metaformoso.

                                      Sílvio L. S. Bedani et alii

Barulho

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Todo poema é feito de ar
apenas:

              a mão do poeta
              não rasga a madeira
              não fere
                                      
                                 o metal
                                 a pedra

              não tinge de azul
              os dedos
              quando escreve manhã
              ou brisa
              ou blusa

                                de mulher.

O poema
é sem matéria palpável
             tudo
             o que há nele
             é barulho

                           quando rumoreja
                           ao sopro da leitura.

                                Ferreira Gullar

Do estilo

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Fere de leve a frase... E esquece... Nada
      Convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.

                       Mário Quintana

Metáfora

sexta-feira, 5 de março de 2010

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Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora

                        Gilberto Gil

A um poeta

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

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Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

                                             Olavo Bilac

Autopsicografia

domingo, 21 de fevereiro de 2010

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O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

                                               Fernando Pessoa

Poética

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          1                                                           2
          Que é poesia?                    Que é o poeta?
                  uma ilha                           um homem
                  cercada                     que trabalha o poema
           de palavras                      com o suor de seu rosto.
                por todos                               Um homem
                os lados                          que tem fome
                                        como qualquer outro homem.

                                                                                                        Cassiano Ricardo

Horas mortas

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          Breve momento, após comprido dia
          De incômodos, de penas, de cansaço,
          Inda o corpo a sentir quebrado e lasso,
          Posso a ti me entregar, doce Poesia!

          Desta janela aberta à luz tardia
          Do luar em cheio a clarear o espaço,
          Vejo-te vir, ouço-te o leve paso
          Na transparência azul da noite fria.

          Chegas. O ósculo teu me vivifica.
          Mas é tão tarde! Rápido flutuas,
          Tornando logo à etérea imensidade;

          E na mesa a que escrevo apenas fica,
          Sobre o papel ─ rastro das tuas ─ asas
          Um verso, um pensamento, uma saudade.

                                                              Alberto de Oliveira

Os poemas

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Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos    
vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

                                                                                                                      Mário Quintana

Isto

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           Dizem que finjo ou minto
          Tudo que escrevo. Não.
          Eu simplesmente sinto
          Com a imaginação.
          Não uso o coração.

          Tudo o que sonho ou passo,
          O que me falha ou finda,
          É como que um terraço
          Sobre outra coisa ainda.
          Essa coisa é que é linda.

          Por isso escrevo em meio
          Do que não está ao pé,
          Livre do meu enleio,
          Sério do que não é.
          Sentir? Sinta quem lê!

                                     Fernando Pessoa

Procura da poesia

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

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Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espere que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


                                                                 Carlos Dummond de Andrade