A descoberta do mundo

sexta-feira, 2 de abril de 2010

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     Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
     Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assuta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la ─ como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
     Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança da língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
     Essas dificuldades, nós a temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
     Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu gostaria de pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

                                                                                                       Clarice Lispector

Orora analfabeta

sexta-feira, 5 de março de 2010

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Eu arranjei lá uma dona boa lá em Cascadura
Grande criatura mas não sabe ler
Nem tampouco escrever
Ela é bonita, bem feita de corpo
E cheia da nota
Mas escreve gato com "j"
E escreve saudade com "c"
Ela disse outro dia que estava doente
Sofrendo de estrombo
Lavei um tombo...caí durinho para trás
Isso sim já e demais!
Ela fala "aribú", "arioprano" e "motocicreta"
Diz que adora feijoada "compreta"
Ela é errada demais
Vi uma letra "O" bordada na blusa
Falei é agora
Perguntei o seu nome
Ela disse é "Orora"
E sou filha do "Arineu"
O azar é todo meu...


    Gordurinha e Nascimento Gomes

Não tem tradução

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O cinema falado é o grande culpado da transformação
Dessa gente que sente que um barracão prende mais que o xadrez
Lá no morro, seu eu fizer uma falseta
A Risoleta desiste logo do francês e do Inglês
A gíria que o nosso morro criou
Bem cedo a cidade aceitou e usou
Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote
Na gafieira dançar o Fox-Trote
Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição
Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês
Tudo aquilo que o malandro pronuncia
Com voz macia é brasileiro, já passou de português
Amor lá no morro é amor pra chuchu
As rimas do samba não são I love you
E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny
Só pode ser conversa de telefone..

                     Noel Rosa

Metáfora

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Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora

                        Gilberto Gil

Palavra cantada

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O substantivo
É o substituto do conteúdo


O adjetivo
É a nossa impressão sobre quase tudo


O diminutivo
É o que aperta o mundo
E deixa miúdo


O imperativo
É o que aperta os outros e deixa mudo


Um homem de letras
Dizendo ideias
Sempre se imflama


Um homem de ideias
Nem usa letras
Faz ideograma


Se altera as letras
E esconde o nome
Faz anagrama


Mas se mostro o nome
Com poucas letras
É um telegrama


Nosso verbo ser
É uma identidade
Mas sem projeto


E se temos verbo
Com objeto
É bem mais direto


No entanto falta
Ter um sujeito
Pra ter afeto


Mas se é um sujeito
Que se sujeita
Ainda é objeto


Todo barbarismo
É o português
Que se repeliu


O neologismo
É uma palavra
Que não se ouviu


Já o idiotismo
É tudo que a língua
Não traduziu


Mas tem idiotismo
Também na fala
De um imbecil





           Sandra Peres / Luiz Tatit

Sintaxe à vontade

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"Sem horas e sem dores
Respeitável público pagão
Bem vindo ao teatro mágico!
sintaxe à vontade..."

Sem horas e sem dores
Respeitável público pagão
a partir de sempre
toda cura pertence a nós
toda resposta e dúvida
todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser
todo verbo é livre para ser direto ou indireto
nenhum predicado será prejudicado
nem tampouco a vírgula, nem a crase nem a frase e ponto final!
afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas
e estar entre vírgulas é aposto
e eu aposto o oposto que vou cativar a todos
sendo apenas um sujeito simples
um sujeito e sua oração
sua pressa e sua prece
que a regência da paz sirva a todos nós... cegos ou não
que enxerguemos o fato
de termos acessórios para nossa oração
separados ou adjuntos, nominais ou não
façamos parte do contexto da crônica
e de todas as capas de edição especial
sejamos também o anúncio da contra-capa
mas ser a capa e ser contra-capa
é a beleza da contradição
é negar a si mesmo
e negar a si mesmo
é muitas vezes, encontrar-se com Deus
com o teu Deus
Sem horas e sem dores
Que nesse encontro que acontece agora
cada um possa se encontrar no outro
até porque...


tem horas que a gente se pergunta...
por que é que não se junta
tudo numa coisa só?
Fernando Anitelli (Teatro Mágico)